Certo lobo, muito fraco e magro, porque os cães vigiavam atentamente os rebanhos de carneiros e não lhe davam oportunidade para caçar, encontrou um mastim gordo e brilhante, que se havia extraviado da matilha.

O lobopensou primeiramente em enfrentar o cão, mas, raciocinando mais calmamente, concluiu que não teria chance contra aquele forte animal. Por isso, aproximou-se cortesmente e iniciou uma conversa, elogiando a bela aparência do mastim, perguntando-lhe como havia feito para consegui-la.

- Não foi difícil - respondeu o cão. - E não lhe custará muito, também obter igual aspecto. Abandone a floresta, porque os que lá habitam não encontram o que comer e acabam por morrer de fome.

O lobo, interessado, perguntou então o que deveria fazer. E o mastim respondeu:

- Vá morar numa casa, adule o patrão, defenda-o dos estranhos e, em paga, você receberá muita e boa comida.

O lobo, ouvindo aquilo e imaginando a boa vida que poderia levar, tremia de emoção. Mas, olhando com atenção para o mastim, verificou que seu pescoço estava pelado.

- Que é isso? - perguntou, intrigado.

- É a marca da coleira com que me prendem - respondeu o cão.

- Então você fica preso? Não pode ir para onde quer?

- Não, nem sempre. Mas que importa isso? retrucou o mastim.

- Ora - tornou o lobo -, isso importa tanto que nem quero mais saber de ricas refeições e bons tratos. Prefiro a fome a ter de bajular e andar acorrentado.

E o lobo afastou-se o mais depressa que pôde.