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Simone Salles
Pára o mundo, que eu quero descer!
O corre-corre atrás do pão de cada dia impele-nos ao isolamento. Esquecemos e somos esquecidos. Depois, com uma espécie de prazer masoquista, ficamos a lamentar a solidão e a chorarmos perdas que nós mesmos nos impusemos. E isso acontece por um motivo simples, óbvio até. Deixamos para mais tarde, sempre para depois, tudo que nos pode fazer feliz.
Morremos em vida e usamos como desculpa a luta pela sobrevivência. Assim, não vivenciamos as situações que nos proporcionam satisfação. Ignoramos o que nos dá alegria. Abandonamos o que nos realiza. Negligenciamos o contato com os amigos, com as pessoas que amamos. Sobreviver é necessário. Viver é preciso. Ter prazer na vida é imprescindível.
Apostamos que nossos amigos, nossos amores entenderão. Afinal, passam pelas mesmas agruras. Com esse pensamento equivocado, perdemos o prazer de compartilhar a vida com quem amamos. Justificamos para nós mesmo, na esperança vã de apazigüar nossa consciência e acalmar nosso coração: C'est la vie...
Mais fácil culpar o cotidiano. São esses dias bicudos, de vacas famélicas; de apostar diariamente corrida contra o tempo, que passa cada vez mais rápido. Explica? Talvez. Justifica? De forma alguma. É verdade. Por mais que nos esfalfemos, terminamos a maioria dos dias - com raríssimas exceções - com a sensação de que esquecemos algo, deixamos alguma coisa por fazer.
Há dias então que o cansaço nos toma e nem dormir conseguimos. Rolamos de um lado para outro na cama. Idéias, lembranças, sentimentos, restos do hoje e a agenda de amanhã passam ininterruptamente pela cabeça, como esses letreiros de rua que dizem hora, cotação da bolsa de valores e sei lá mais o quê.
Assim, a vida vai passando por nós. Nós, passando por ela. Ambos apressados. Ela, pela seqüencia inexorável dos segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos. Nós, premidos por oompromissos inadiáveis; prazos a cumprir; filas a enfrentar, aprisionados pelo tráfego caótico das cidades.
Atitude. É disso que precisamos para escapar desse círculo vicioso. Tomar a atitude de chegarmos à janela, à porta, ou no meio da rua – se a timidez não impedir - e gritar a plenos pulmões para o globo terrestre: Pára já, que eu quero descer! Então, relaxar, sossegar e nos darmos ao desfrute de viver. Simplesmente viver.
Aproveitarmos a companhia dos amigos, dos filhos, da pessoa amada. Percebermos as cores e os sons do dia e da noite; a intensidade dos pequenos momentos, a beleza das coisas simples. Sem paletó e gravata, sem terninho e salto 8, sem agenda, sem celular, sem relógio.
Coisa mais gostosa receber notícias dos amigos e poder contar-lhes as nossas novidades (ou a falta delas); fazer e ouvir confidências; trocar figurinhas sobre o antigo, o novo ou o futuro amor. Poder dizer que as crianças estão bem e, delicadamente (com ar inocente de quem não quer nada), perguntar-lhes se não as querem emprestadas por uns tempos. Pouco. Podem devolvê-las quando estiverem educadas, formadas e encaminhadas na vida.
Dizer-lhes e ouvirmos deles o quanto são amados e como somos queridos. Chamá-los para ver em vídeo ou DVD, com direito a pipoca e refrigerante, aquele filme genial do Tarantino - que esteve por meses em cartaz, mas não tivemos tempo para o cineminha. Aceitar o convite para um choppinho despretencioso num final de tarde qualquer. Puro pretexto para colocar a conversa em dia e desfrutar da companhia do outro.
Certeza incontestável na vida, só temos uma: a morte. Mesmo assim há controvérsias sobre o assunto. Há quem diga que morremos e vamos para o Céu ou para o Inferno, com ligeira passagem pelo Purgatório. Outros acreditam que reencarnamos para expiar os erros cometidos na vida anterior, até alcançarmos o estágio de elevação e pureza necessário aos habitantes do Andar de Cima.
Não palpito sobre isso. Não morri ainda. E se já morri alguma vez, não lembro - o que vem a dar no mesmo. Numa coisa, entretanto, acredito piamente. Se da vida levamos algo de valor - além do bem que fazemos -, esse algo são as preciosas lembranças dos momentos vividos, compartilhados, com aqueles que amamos. Mais nada. Porque o resto fica aqui para os herdeiros e para a terra, que um dia há de comer a todos nós.
Simone Salles é jornalista e escritora.
Contatos pelo e-mail:
simone-salles@uol.com.br
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