lazitamorim



Traços


Os traços borram cada poema que ouso reescrever
Entre oceanos que transbordam por meus dedos machucados.
Enquanto que, destes lápis que se desencaixam,
desabrocham frases corriqueiras.
Um silêncio estranho interrompe cada palavra.
Entre parágrafos de cartas fechadas, em meus versos
mais feios e nem mesmo as gotas de água
sabem desmanchar essa poesia
Que se desmonta a cada fotografia que tento tocar,
a cada lápis que pretendo desapontar.
Os traços despedaçam, silenciosamente,
cada pérola que ouso interpretar
Entre jardins que através de curtas temporadas de chuva,
derramam flores sobre o nosso telhado
Como se fossem olhos curiosos que, por não saberem
observar ao seu redor, nascem desabotoados
Às margens de rios que prosseguem seu caminho
sem deixar vestigios ou quem sabe,
rastros que se possam apenas contemplar
Entre folhas que caíram do penúltimo outono,
sobre calçadas onde me sentei um dia
Onde abandonei desconhecidas poesias que um dia elaborei,
quando percebi meus erros.
Que desabam sobre meus pés, abrindo feridas que tento esconder
A cada frase que ouso rabiscar.
Enquanto meus dedos, já gastos de tentar reescrever
contínuos poemas de porcelana,
esfarrapam por cortar-se com cacos de vidros
que se espalham pela mesa
Deixo lágrimas involuntárias se desmancharem
em cada palavra que não ouso escrever
Por não constarem nesses nomes que,
ao deixar no meu diário,
já pelo amarelado do tempo,
desbotam-se como roupas que presenciaram minha tolice
de chorar por não saber brincar de fazer poesias
Cujos textos me lembram a rebeldia dos loucos,
sem títulos ou simples intenções de um poeta contemporâneo,
Cuja infância se confunde com meus toscos calendários,
que envelhecem em silêncio,
Cujas delicadezas estão nas mais insensatas páginas do meu último livro.
Inquietações que não ouso tocar para
não me ferir...












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