|

Isabel Fontes
Amarelo, laranja, vermelho...
Ela corria como nunca tinha corrido, corria como se estivesse a salvar a vida,
como se corre em sonhos. Só que não estava a sonhar, embora o vento que lhe
batia no rosto fosse familiar. Estremeceu com uma violência desmedida, uma
explosão tinha acontecido mesmo atrás de si. Vacilou quando o chão abanou,
quase que caiu para o chão de encontro ás pedras da calçada. As chamas
tombavam com uma doçura incrível, de uma luz amarela apimentada com laranja.
Tentou-se segurar no muro de cimento que encontrou, olhando para trás via a
rua de um vermelho perceptível, um clarão. Equilibrou-se e tentou avançar
para a rua seguinte, fugir para um novo horizonte. Recomeçou a correr mais
velozmente quando avistou os bombeiros diante da sua casa. Desenrolavam-se e
juntavam-se cada vez mais mangueiras no centro da rua. Ainda não tinha
percebido porque lhe estava a acontecer aquilo. A água jorrava pelos blocos de
cimento e madeira, pelas janelas de vidro, outra explosão fê-la estremecer.
Do clarão conseguiu ver metade da cozinha, o que restava. Sentou-se na ponta
do passeio, junto a um monte de lixo que provinha de um caixote a transbordar
de inutilidades. De olhos fechados e com as mãos a tapar os ouvidos,
permaneceu assim o tempo de um dos paramédicos ter-lhe tocado no ombro.
Sentia-se mais calma, as luzes dos carros que por ali circundavam feriam-lhe a
vista e voltou a fechar os olhos. Quando os voltou a abrir já se encontrava
dentro da ambulância a receber assistência ao golpe que tinha na cabeça. O
soluçar da sirene trazia-lhe à memória o que inicialmente tinha acontecido,
outro estrondo, estremeceu novamente. O paramédico agarrou-a mais uma vez,
prendeu-a num abraço forte, ela esperneou, a defender-se e de repente caiu,
dobrada nos braços dele. Num momento de pausa conseguiu fugir. Correu pelo
carreiro de luzes amarelas e atirou-se para os arbustos que se formavam no fim
da rua. O roncar abafado dos carros que iam passando traziam- lhe à memória
tudo o que neste fatídico dia lhe tinha acontecido. Outro estrondo, era o
telhado a abater, cuspindo o interior pelas janelas para a rua, como o rugir de
um dragão, chocando com o soalho do rés-do-chão, abrindo-o em lajes que se
espalharam pela rua inteira. Ficou ali parada, com as mãos nos ouvidos contra
o som de destruição que se ia vendo, os olhos bem abertos para admirarem todo
o espectáculo de fogo que se vivia no jardim dos vizinhos. No frio do Inverno
só se ouvia o bramido do incêndio e o assobio da água na madeira a arder, um
horrível som metálico à medida que o fogo dedilhava e partia as correntes de
energia. A primeira ronda de bombeiros virou-se para o prédio do lado.
Avançou. Um bombeiro puxou-a para trás, agarrou-a, empurrou-a para junto do
carro onde outro bombeiro a abraçou, ela esperneou e libertou-se. Um estrondo
discordante entrou-lhe no peito e apertou-lhe o coração. Ela trepou o carro,
a gritar para o calor que se libertava da casa incendiada. - Papá! Papá!
 
Copyrigth© 2005 MeuSonho. Todos os direitos reservados.
Desenvolvimento e Administração TheAngel®.
|
|
|
|
|