|

Valeriano Luiz da Silva
O MENDIGO
Meu amigo vou te contar
Um pouco de quem anda a perambular
Há muitos anos vivo nesta vida
Pedindo pratos de comida
Não tenho horário para comer
Nem direito de escolher
Um dia como os restos dos nobres
Outro as primícias do pobre
Mas como tem coração bom e coração mau
Nem todos os dias a coisa é igual
Naquele dia como o resto dos pobres
E as primícias dos nobres
Mas tem dia meu amigo, nem o pobre, enxerga minha dor,
Tenho que tentar achar alguma coisa jogada no tambor
Doente e cansado, escorrendo suor
Pra achar algo pra comer, tenho que enfrentar o mau odor
Enquanto em muitas casas a comida vai pro lixo
O mendigo miserável come até o que acha com bicho
Raramente acontece de alguém me respeitar
Manda que eu assente na garagem pra poder almoçar
É nestes trágicos momentos que começo a recordar
De quando mamãe gritava, Joca venha almoçar
Mamãe não estou com fome eu quero mesmo é brincar
Filhinho venha comer você precisa engordar
Mamãe quer ver você bonito e um dia se formar
Quer ver você casado e muitos netos vais me dar
Mas ainda tem muito tempo pra estas coisas a gente conversar
Joca venha logo que a comida vai esfriar
Mas mamãe já morreu e o mundo é minha seara
Tem dia que o prato que ganho é a porta na cara
Pra dormir não é diferente
Pois mendigo não é gente
O mendigo não tem teto
Dorme ao céu aberto
Se eu fosse gente tinha coberta para mim aquecer
Dormia bem tranqüilo até o dia amanhecer
De manhã os dentes escovava e o cabelo o penteava
Não teria esta barba suja pois bem cedo eu a raspava
Colocava roupa limpa no corpo e o sapato calçava
Folgadamente numa mesa o café eu tomava
Tem vez que um bom coração com carinho e muito amor
Acaba me dando pra embrulhar um usado cobertor
Alguns me dão roupa nova e até toalha pra enxugar
Mas logo tudo estará sujo não tenho onde banhar
Em poucos dias o cobertor está imundo pois não tenho onde guardar
Quando a noite vem chegando procuro um lugar pra repousar
Enfio embaixo do imundo cobertor
Tem noite que perco o sono por causa do mal odor
No frio com meu vira latas eu divido a coberta
Meu cãozinho me aquece quando o frito aperta
Eu já disse que mendigo não é gente e você não quer acreditar
Em que endereço o Brasil me encontra na época de recensear?
É inerente à vida humana ter mendigo no mundo
Há milênios já se encontrava esse ser andando sem rumo
O que você não deve esquecer é que todo mendigo já foi gente
O mais triste desta vida é que ninguém quer ser seu parente
Outra coisa quero te lembrar, a vida é como roda gigante
Você pode ter muita coisa até o presente instante
Mas seja manso e humilde e não seja ignorante
Quando passares por um mendigo não sejas repugnante
Pois os movimentos da nossa vida tem alterações constantes
Quantos que hoje são mendigos já foram de turmas comandantes
Quantos mendigos passam fome, mas tiveram restaurantes
Quantos foram donos de hotéis, hoje dormem na praça ao lado da fonte
Quantos pisaram favos de mel e hoje alimentam com fel
Quantos já foram conselheiros
Hoje os meninos dele corre com desespero
Mendigo não é gente, senão usava perfume e não teria mal cheiro
Alguns já foram pra Europa de avião
Hoje andam descalço e de com os pés no chão
Se mendigo fosse gente andava de ônibus
Mas como não é apanha e leva tombo
Quando este miserável beira uma festa
Telefonam pra polícia vir depressa
E logo vão falando tem um ladrão escondendo
E o resultado não necessita de eu ir te dizendo
Acho que já lamentei demais e torrei sua paciência
Mas quem sabe quem ler este relato um dia terá clemência
E esse ser indiferente um dia virá a ser gente
E quando ele morrer não o enterrará como indigente
Que no seu velório terá um lindo funeral
Alguém poderá dizer, sabe quem é esse tal?
Outros vão responder é aquele que perambulou
Mas com certo amparo a mente recobrou
Esse mendigo veio a ser gente pois do nome ele lembrou
Agora que já é gente documentos ele tirou
Recuperou sua saúde e emprego ele arrumou
Alguém chora no velório pois muita coisa a ele negou
Mas para que isto aconteça muita coisa precisa mudar
O homem ver o mendigo e não mais o ignorar
Pra proteger esse ser andante o governo deve criar
Um órgão que como engrenagem venha trabalhar
Médicos, enfermeiros, nutricionistas e psicólogos
Assistentes sociais e também fonoaudiólogos
Junto com outros profissionais comecem trabalhar imediatamente
E aí o andarilho voltará a ser gente
O apelido de Joca será coisa do passado
Depois do tratamento um nome lhe foi dado
Joca agora é respeitado e até documentado
Alguns Jocas viraram Pedro outros Romualdos.
Poesia criada por Valeriano Luiz da Silva em 06/04/04
Anápolis Go, valerianols@globo.com
 
Copyrigth© 2005 MeuSonho. Todos os direitos reservados.
Desenvolvimento e Administração TheAngel®.
|
|
|
|
|