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MARIA DA GRAÇA AMANTINI
SONHO DE NATAL
Era noite, véspera de Natal!
Os anos pesavam-lhe demais sobre os ombros e dos natais passados trazia muitas lembranças.
Passava-lhe pela cabeça cenas de quando o filho era pequeno, ainda garotinho e ela levanta-se duas ou três vezes durante a noite, ia até o quarto e encontrava-o na cama dormindo , verificava se precisava de alguma coisa, ajeitava-lhe o cobertor e voltava bem devagar para seu quarto, para não acordá-lo. Lembrava de tudo com o mesmo carinho que só uma mãe amorosa sabia dar.
Lembrava-se da alegria das crianças ao abrir os presentes, dos doces gostosos que costumava fazer, as roupas novas e bonitas que gostava de usar na noite de Natal.
Agora estava ela, ali, sozinha, com seu velho corpo cansado, estirado sobre a cama, vivendo apenas de recordações.
No dia seguinte, mal abriu os olhos de uma noite mal dormida, seu pobre coração encheu-se de esperanças. Esperança de rever aquele filho que havia crescido, ficou moço bonito e forte, virou doutor, constituiu familia, foi morar longe e praticamente se esqueceu dela. Mas, ela entendia, ele tinha muitos compromissos, não sobrava tempo para uma velha doente.
Em meio às recordações, ela percebeu que havia esperado 364 dias por esse dia: O dia de Natal. O dia em que seu filho chegaria! Não precisava trazer presentes, ela só esperava abraça-lo e sentir o calor de seu corpo junto ao dele. O dia para rever os netinhos e observar o quanto haviam crescido.
Tinha esperança de rever os amigos e com eles poder recordar a juventude.
Mas, nada aconteceu! Continuava sózinha, apenas esperando.
Teria contado errado os dias?
Não! Errado estava o mundo e as pessoas que dela esqueceram.
Esse ser tão gracioso , que ensinou tanto amor pela vida, agora estava ali, indefesa à espera de um pouco de amor e carinho, esquecida pela vida, esquecida pelos amigos e esquecida pelo filho tão querido.
Também pudera, ela quase nem falava, apenas gemia e reclamava de dores, já não andava mais, precisa ser ajudada para caminhar. Uma pessoa assim acabava atrapalhando, as pessoas tinham coisas mais interessantes para fazer e por isso acabavam se afastando.
Assim pensando, a senhora idosa viveu o ano inteiro esperando, e na espera não se desesperou. Sempre achava que naquele Natal as coisas mudariam e as pessoas viriam visitá-la.
Mais uma vez, ela passou o dia de Natal, olhando pela janela, esperando.
Às vezes cochilava e sonhava. Sonhava com seu filho chegando, se jogando nos braços dela, sentando no seu colo, como quando era criança. Mas, era apenas um sonho!
De repente, a doce senhora, acordava num sobressalto, e tudo estava claro, para ela o mundo continuava escuro, triste. Ela continuava sozinha e esquecida, mas a esperança, ainda lhe enchia o coração, afinal o dia de Natal ainda não havia chegado ao fim.
Quando a noite chegou ela relutou em dormir, chorou seu presente sonhado, seu sonho de Papai Noel que mais uma vez não aconteceu. O filho querido não veio.
Dormiu, ouvindo os sinos de Natal.
Naquela noite, sua vida chegou ao fim!
Ela se foi, desse jeito quieto, sem reclamar a dor por ter esperado tanto tempo um sonho de Natal, que não se concretizou.
E sozinha, no silencio da noite, seu sonho de Papai Noel, acabou!

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