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Eva Borges Rodrigues
O LADRÃO
Senhor, eu tenho fome !
Sou homem pobre, que não tem cultura...
Meus pés descalços, sobre a terra dura...
Eu já nem sei como é que se come...
No meu barraco tosco e sem conforto,
Vejo dois olhos cheio de esperança !
Senhor... meu filho é essa criança !
Dos cinco é o único que não está morto...
A mãe se foi ao tê-lo a pobre,
E eu aqui, a me roer por dentro
Na impotência de prover-lhe o pão,
De dar-lhe um bocadinho que sobre...
Olho os pézinhos sujos no chão...
As mãos tão pequenas crispadas de frio...
-Vem, filho, os braços do pai serão teu cobertor.
Tiro do bolso uns pedaços de bolo e estendo,
E seus olhos se iluminam, Senhor !
É sua refeição o dia todo,...
É tudo que esse andarilho conseguiu...
Ah! Deus não é esmola que quero !
Preciso de trabalho honesto, honrado
Não importa quando, nem calor, nem frio...
Quero do trabalho o corpo cansado
E, ver o menino vestido, calçado...
Mas Senhor, sinto que as forças se vão...
Bati em todas as portas... e só não !
Vê Deus o menino sorri...sorri !
Nunca provara os doces de hoje
E como tudo com satisfação
Sinto os olhos molhados, pai !
Meu coração duro, bate no descompasso...
Sorrio inseguro, penso em chama-lo...
Quem sabe um derradeiro abraço...
A visão se turva, as mãos tremem,
Mas aperto o balaço,
Ainda há algo a dizer-lhe Pai:
Perdoa esse pobre ladrão
Que tentou, que sofreu, implorou
Quis honrar-te, mas falhou...
Olha-me por um minuto, Senhor
Protege o menino que fica sem mim
E se possível responde:
Quem rouba comida, Senhor, tem perdão ?
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