Castro Alves
Enviado por "Hamilton Soares Kage"



Crepúsculo do mar


No céu brilhante do poente em fogo
Com auréola ardente o sol dormia:
Do mar dourado nas vermelhas ondas
Purpúreo se escondia.

Como da noite o bafo sobre as águas
Que o reflexo da tarde incendiava,
Só a idéia de Deus e do infinito
No oceano boiava!

Como é doce viver nas longas praias
Nestas ondas e sol e ventania!
Como ao triste cismar encanto aéreo
Nas sombras preludia!

O painel luminoso do horizonte
Como as cândidas sombras alumia
Dos fantasmas de amor que nós amamos
Na ventura de um dia!

Como voltam gemendo e nebulosas,
Brancas as roupas, desmaiando o seio,
Inda uma vez a murmurar nos sonhos
As palavras do enleio!...

Como voltam gemendo e nebulosas,
Brancas as roupas, desmaiando o seio,
Inda uma vez a murmurar nos sonhos
As palavras do enleio!...

Aqui nas praias onde o mar rebenta
E a escuma no morrer os seios rola,
Virei sentar-me no silêncio puro
Que meu peito consola!

Sonharei - lá enquanto, no crepúsculo,
Como um globo de fogo o sol se abisma
E o céu lampeja no clarão medonho
De negro cataclisma;

Enquanto a ventania se levanta
E no ocidente o arrebol se ateia
No cinário do mpíreo derramado
A nuvem que roxeia...

Hora solene das idéias santas
Que embala o sonhador nas fantasias,
Quando a taça do amor embebe os lábios
Do anjo das utopias!

Oceano de Deus!Que moribundo,
Do nauta na canção que voz perdida
Tão triste suspirou nas tuas ondas,
Como um adeus à vida?

Que nau cheia de glória e d' esperanças,
Floreada ao vento a rúbida bandeira,
Na luz do incêndio rebentou bramindo
Na vaga sobranceira?

Porque ao sol da manhã, e ao ar da noite
Essa triste canção, eterna, escura,
Como um treno de sombra e de agonia,
Nos teus lábios murmura?

É vermelho de sangue o céu da noite
Que na luz do crepúsculo se banha:
Que o planeta do céu do roto seio
Golfeja luz tamanha?

Que o mundo em fogo foi bater correndo
Ao peito de outro mundo - e uma torrente
De medonho clarão rasgou no éter
E jorra sangue ardente?

Onde as nuvens do céu voam dormindo,
Que dourada mansão de aves divinas
Num véu purúreo se enlutou rolando
Ao vento das ruínas?












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