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Regina Oliveira de Almeida
A DESCOBERTA
Certa vez, um homem velho disse à menina que se cuidasse, que se mantivesse à altura do nariz de sua alma. Não era um conselho doce, nem a menina era reticente. Mas tinha um ar tolo de quem não escuta o que não deseja, e talvez, nem mesmo escutasse bem os próprios desejos.
Parecia desencantada, estava sempre imersa num mar de sombras fatais; fantasmas misturados de geraçòes passadas a habitavam, num interminável porão.
No início, ela metia, ingenuamente, o dedo na garganta, esperando que o vômito os levasse; mas eles não eram feito da matéria do vômito. Eram nojentos, por certo, mas não eram vomitáveis. Tomou purgativos; tentou abrir chagas nas pernas, mas percebeu logo, que além da insuportável dor, eles não sairiam com o sangue. Afinal, já tinha menstruado, e sabia que aquele líquido malcheiroso só transportava esperanças frustradas.
Pensou em abrir a barriga e expor as vísceras, mas não pôde conter as lágrimas, e foi aí que os viu: tenebrosos, senhores e habitantes. Donos, enfim, de tudo o que acreditava ser o seu ser.
Pressionada pelas circunstâncias infelizes, cerrou a boca e o coração. A vagina ficou aberta, sabia que os fantasmas não a habitavam. Não se demorariam num lugar onde a felicidade é tão temporária.
Foi assim que o homem velho a reencontrou, marcada, repleta de fissuras, mantendo o nariz à altura de uma alma que não era sua.

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