OSCAR R.NETO



A HISTÓRIA

Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como Planeta Marte, no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se com o chefe dos insurretos, Garcia , que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele, pelo correio ou pelo telégrafo, no entanto o Presidente tinha de tratar de assegurar-se da sua colaboração, e isto o quanto antes...Que fazer? Alguém lembrou ao Presidente: "Há um homem chamado Rowan e se alguma pessoa é capaz de encontrar o Garcia, há de ser Rowan.

Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la à Garcia . De como este homem, Rowan , tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e, após quatro dias, saltou de um barco, sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba. De como se embrenhou no sertão, para depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil e entregando a carta a Garcia , são coisas que não vem ao caso narrar aqui, pormenorizadamente, o ponto que desejo frisar é este: Mac Kinley deu a Rowan uma carta para ser entregue à Garcia : Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou: "Onde é que ele está?"

Aleluia ! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem de instrução sobre isto ou aquilo, precisa, sim, de endurecimento das vértebras, para poder-se mostrar altivas no exercício de um cargo, para atuar com diligência, para dar conta do recado, em suma, levar uma mensagem a Garcia.

O general Garcia, já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha em levar avante uma empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, tem sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de grande número de homens ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e faze-la. Assistência regular, desatenção tola, trabalho mal feito parecem ser a rara geral. nenhum homem pode ser verdadeiramente sucedido, salvo se lançar amo de todos os meios ao seu alcance, quer da forca, quer de subornos para obrigar outros homens a ajudá-lo, a não ser que DEUS Onipotente, na sua grande misericórdia, faca um milagre enviando-lhe um auxiliar.

Leitor Amigo, você mesmo pode tirar a prova. "Esta sentado em seu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados, pois bem, chame um deles e peça-lhe: - Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me fazer uma descrição sucinta da vida de Corrégio ! -Dar-se-ia o caso do empregado dizer calmamente: "Sim, Senhor" e executar o que se lhe pediu? .. Nada disso, perplexo ele fará uma ou mais das seguintes perguntas: Quem é ele / Que enciclopédia? / Onde está a enciclopédia? / por acaso fui contratado para fazer isto ? / Não quer dizer Bismark ? / E se o Carlos fizesse ? / Já morreu ? / Precisa disso com urgência ? / Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer? / Para que saber isso ? ... E aposto dez contra um que depois de haver respondido a tais perguntas e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisa, seu empregado irá pedir à um companheiro que o ajude a encontrar Garcia e, depois voltará para dizer que este homem não existe...Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta, mas segundo a lei das medias, jogo na certa, ora se você for prudente, não se dará ao trabalho de explicar ao "ajudante" que Corrégio se escreve com "C" e não com "K" mas limitar-se-á dizer meigamente, esboçando o melhor sorriso: "Não faz mal, não se incomode", e dito isto, levantar-se-a e procurará você mesmo, é esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez da vontade, esta atrofia de disposição de solicitamente se por em campo e agir, são as coisa que empurram para um futuro remoto o advento do Socialismo puro. Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito - Que farão quando o resultado de seu esforço redundar em benefícios de todos ? - Por enquanto parece que os homens ainda precisam, ser feitorados. O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não fizer será despedido no fim do mês. Anuncie precisar um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar, nem pontuar, o que não é mais espantoso, pois pensam que não é necessário sabe-lo. Poderá uma destas pessoas escrever uma carta à Garcia ? "Vê aquele guarda-livros?" - Perguntava-me o chefe de uma grande fábrica - "Sim, que tem " - É um excelente guarda-livros, contudo se eu o mandasse levar um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também podia ser que no caminho entrasse em duas ou três casa de bebidas e que, quando chegasse ao seu destino, já não se recordasse da incumbência que lhe fora dada". "Será possível confiar-se a tal homem uma carta para entregá-la a Garcia"?

Ultimamente, temos ouvido muitas expressões sentimentais externando simpatia para com os pobres entes que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados a cata de trabalho honesto, e tudo isto, quase sempre, entremeado de palavras duras para com os homens que estão no poder. Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscientemente, nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar tempo", logo que ele volta as costas. Não há empresa que não esteja demitindo pessoal que se mostre incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substitui-los por outros mais aptos. E este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os imprestáveis. É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores, aqueles que podem levar uma mensagem à Garcia. Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra para gerir um negocio próprio e que, ademais se torna completamente inútil para qualquer pessoa, devido a suspeita insana, que constantemente abriga, de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo, sem poder mandar, não tolera ser mandado. Se lhe fosse confiada uma mensagem à Garcia, retrucaria, provavelmente: "Leve-a você mesmo", - Hoje este homem perambula errante pelas ruas, em busca de trabalho, em quase petição de miséria, no entanto, ninguém que o conheça, se aventura a dar-lhe um trabalho, porque é a personificação do descontentamento e do espirito de réplica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um pontapé dado com a ponta de uma bota numero 42, de sola grossa e bico largo.

Sei, não resta dúvida que um indivíduo moralmente aleijado como este, não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado, entretanto nesta demonstração de compaixão, veríamos também uma lágrima, pelos homens que se esforçam por levar adiante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som de apito, e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz, justamente daqueles que, sem seu espirito empreendedor, andaram famintos e sem lar.

Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiadamente carregadas? Pode ser que sim, mas quando se apraz em divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que a despeito de uma porção de empecilhos, sabe se dirigir e coordenar os esforços de outros e, que após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou, nada salvo sua subsistência.

Também eu entreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro, como também tenho sido patrão, sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados, não há excelência na pobreza em si mesmo, farrapos não servem de recomendação, nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.

Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscientemente, quer o patrão esteja, quer não, é o homem que, ao lhe ser confiada uma carta a Garcia, tranqüilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário, esse homem nunca fica "encostado", nem tem que declarar-se em greve para forçar um aumento de ordenado.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições, tudo que um tal homem pode pedir, ser-lhe-á de conceder.

Precisa-se dele em cada cidade, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja em cada fábrica. O grito do mundo inteiro se resume nisso - "PRECISA - SE COM URGÊNCIA, DE UM HOMEM CAPAZ DE LEVAR UMA MENSAGEM À GARCIA.".


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