Yrajá Sampaio Neves Crespo



Reflexões de Natal


Natal , natalício...aniversário, renascimento, renovação, inúmeras são as palavras que nomeiam esse fato.

Um dia em terras do oriente nasce Jesus, esse singular personagem que viria mudar a historia da humanidade e dividir as épocas, antes e depois.

É véspera de Natal, a atmosfera se metamorfoseia e a mudança se faz sentir no ar exteriormente e interiormente em nós. Invade-nos uma sensação estranha mas muito agradável, nossos anseios se acalmam, nossa percepção se amplia, sentimos com mais clareza o que se passa a nossa volta.

Percebemos que não somos absolutos, e nem tão pouco auto-suficientes, observamos que estamos cercados por criaturas que nos auxiliam, que nos servem, e que conosco partilham o mesmo oxigênio da vida, que o CRIADOR oferece a todos, serve-se dele a ameba e o sábio, não há distinção. E nesse envolvimento sutil, sintonizamos bem próximo a nós a esposa a organizar o lar com o toque peculiar do capricho feminino, tudo no lugar, arrumadinho. A educação dos filhos também quase que compromisso da esposa.

E antes desse clima novo, nem havíamos notado tão importante participação e ensimesmados refletimos; como é bom ter uma esposa, uma companheira a nos apoiar, ter um lar para voltar, muitos nunca o tiveram. O abrigo a trincheira de paz entre as lutas de cada dia, o carinho das mãos delicadas a afagar nossa fronte renovando nosso ânimo para novos desafios.

Possuídos pelo sentimento novo, avaliamos com mais propriedade o valor da vida e o que nela representamos, o que seríamos sem o lar e como sobreviveríamos sem o camponês que semeia o grão e transformado em alimento abundante chega a nossa mesa, e todo o exercíto de trabalhadores e servidores que amparam nossa existência, das ciências médicas ao humilde serviçal que encaminha os detritos que produzimos para serem descartados preservando o ambiente em que vivemos higienizado.

E, assim envolvidos por essa atmosfera de paz, demandamos a rua, e lá se repete a cena, o mendigo que caminha nos passos da exclusão por coincidência vem em nossa direção, porque caminhada de mendigo não tem rumo, não tem destino programado, mas como é véspera de Natal nossos olhos o vêem refletido na imagem de irmão, e arriscamos...olá como vai? Ele olha em redor não há ninguém pensa, será comigo? E se retrai, nada responde, não está acostumado a que se dirijam a ele como a um ser humano igual aos outros, ainda que respire o oxigênio comum não é? Mas insistimos tudo bem irmão? Aí então ele se assombra e em solilóquio confabula, e eu que nunca soube ter um irmão, mas arrisca um sorriso, mesmo porque não há para o que sorrir.

Então possuídos pela transformação natalina iniciamos o relacionamento que entendemos cristão, aliás o clima é propício. E nos adiantamos; a vida é dura não é? O mendigo pensa para quem? Para ele ou para mim? Mas meneia a cabeça concordando, mas não liga não, tudo passa, as coisas boas passam e as ruins também passam. E o mendigo que de filosofia só conhece bem a da fome, aliás nesse conhecimento é doutor, continua concordando com gestos mudos.

Mas é véspera de Natal e nos sentimos pródigos, e como o diálogo com o excluído arrasta-se penoso, metemos a mão no bolso e num gesto de larga bonomia premiamos o novo irmão, irmão adotado na véspera de Natal, com um real mas ainda nos inquirimos será que exageramos? Acho que não afinal é véspera de Natal e justificamos nossa consciência; com certeza esse mendigo isto é esse nosso novo irmão encontrará outras pessoas que como nós o irão premiar e então os reais serão muitos e a cena da multiplicação dos pães e dos peixes se repetirá quem sabe terá uma mesa digna, bem não temos certeza que será uma mesa, mas algum banco de jardim em companhia de outros excluídos da sociedade onde terão sua ceia comum, de pães claro, porque peixes andam em falta, mas esperemos que haja alimento para todos, afinal somos irmãos e todos temos direito ao alimento, especialmente no dia em que se irá comemorar o aniversário de Jesus.

Após, prepararmos com a família a lista de compras da festa natalina, os presentes, a mesa será farta, a alegria neste dia será completa . Todos felizes e assim aconteceu. Mas, refletindo e nos detendo em rápida introspecção, perguntaremos após as festividades, e o aniversariante, o homenageado onde estava? E nos perquirimos, incrível! Esquecemo-nos do aniversariante e nem ao menos uma simples homenagem lhe prestamos, mas mesmo sem ser convidado, ele estivera presente, apenas por não termos olhos de ver não registramos sua presença ou nos esquecemos das máximas: tive fome e me deste de comer, tive sede e me destes de beber, estive preso e me visitaste.

Quem seria o mendigo senão Jesus nos apresentando a oportunidade do gesto de fraternidade que não soubemos exprimir nem mesmo nesse dia tão especial!

Assim mais um Natal veio e passou e não convidamos o personagem principal para festejar conosco, e fixar abrigo em nosso lar.

Assim meus irmãos muitas foram as passagens históricas que conhecemos em que este incomparável Espírito se propôs a residir no coração do homem, relembremos; Paulo de Tarso a portas de Damasco diante da figura refulgente de, Jesus, de ferrenho perseguidor aos cristãos e a sua doutrina, transforma-se em seu mensageiro maior. Maria de Magdala, de adúltera a seguidora incondicional de Jesus transformando sua vida em enfermeira de uma comunidade de leprosos, onde termina sua existência vitimara pela hanseníase, filtrando talvez as ultimas escórias de seu espírito.

E nós? Com qual estória se parece a nossa? Com a de Publio Lentulus?

Talvez, orgulhoso Senador Romano que por insistência de sua esposa Lívia tendo a filha acometida pela doença repugnante na época, a lepra, sai a procura de Jesus nas horas mais tardias do dia para que não seja percebida pelo povo e em encontrando-o, Jesus se adianta e lhe fala: melhor fora, que me procurasses as horas mais claras do dia volta a tua casa, tua filha esta curada pela fé de tua esposa.

E Publio Lentulus, relata a história espírita, o orgulhoso senador romano renasce cinqüenta anos após o seu desencarne, na figura de um escravo por nome Nestório e recomeça seu aprendizado agora na obscura posição de escravo, para o desenvolvimento da virtude maior, a humildade

Adverte-nos um espírito em mensagem ao Chico, quem não convidou Jesus para habitar seu coração nos verdes anos de sua vida, não o terá por companhia no outono de sua existência, caminhemos ao encontro de Jesus, e o convidemos para morar em nosso coração por todos os dias de nossa existência e nosso clima espiritual será permanentemente esse doce e sublime envolvimento do Natal.











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