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DELCIDES NETO
Pega a caneta sobre a mesa e escreve...
Pega a caneta sobre a mesa.
E escreve.
Escreve com ela e história da tua vida, escreve com ela o que a lembrança não te trará de volta. Perde teu tempo em escrever detalhes do teu caminho, mas ganha a satisfação no futuro, de recordações proporcionadas no passado.
Pega a caneta sobre a mesa e escreve. Escreve no papel as alegrias que te renovam a alma, alimentam tua fé e sustentam tua esperança.
Faz dela o protagonista de tuas lendas onde o esquecimento através do tempo e a preguiça pela escrita são vilões.
Busca, no caminho deixado pela sua tinta, as empolgações dos momentos que outrora faziam florir em teu rosto um majestoso e iluminado sorriso.
Registra com ela os motivos que fizeram aflorar em teus olhos as lágrimas do teu desatino.
Faz dela o principal instrumento do teu ofício, seja ele o ensinamento, o salvamento de uma vida, desenhos como os feitos por crianças ou por artistas plásticos.
Que ela seja de tua utilidade, escreve com ela um bilhete que indica onde mora a felicidade, assina com ela os tratados que te farão vitorioso ou te trarão às ruínas da tua inexperiência.
Escreve com ela o resumo da tua infância, os amores de tua mocidade, as conquistas da tua juventude, as desgraças dos teus fracassos, as expectativas do teu futuro ou as lembranças de tua vida cumprida.
Escreve...
Linha após linha, coloca tua vida aos olhos dos outros. Ensina com tuas escritas o que conseguiu de bom, como corrigiu o mal. Descreve teus tropeços e não deixa que os outros os façam da mesma forma que ti.
Ali sobre a mesa está tua caneta. Sozinha, sobre o papel, repousa à tua espera. Ela está louca para saber de ti, ser confidente de teus segredos, te consolar em tuas dores, ser uma amiga para uma auto-conversa. Ela quer dançar entre teus dedos uma valsa única, porém definitiva no registro de teu caminho. O papel é seu salão e a seqüência de teus pensamentos é que determina o ritmo de tua dança.
Ela está louca para dançar, deslizar em seu salão os passos de teus desejos. Dançar uma música romântica num recado para tua namorada ou uma música carnavalesca por tuas novas conquistas.
Escreve com ela frases que te faz parar por um momento de reflexão, um conselho mais que amigo para teus filhos, um pedido de demissão daquele teu serviço chato, uma carta para Papai Noel.
Para teu filho deixa o bom exemplo, a camaradagem, teus projetos conquistados e os que se perderam no caminho, mas que se ele conseguir cumpri-los, terá contribuído para a evolução do teu próximo. Para teu patrão, que agora é ex-patrão, deixa palavras de agradecimento pelos momentos que trabalharam juntos.
Para Papai Noel, escreve uma cartinha simples, porém de coração. Peça um presente que tu possas dividir com os outros ou, se preferir, pede permissão para distribuir seus presentes em seu lugar e tira daquele saco pesado embrulhos leves como a esperança, compreensão, fé e solidariedade.
Por fim escreve. Escreve para aquele que te ensina e te corrige. Escreve para aquele que tu ensinas. E ensina mais: viver, viver e morrer. Enquanto se vive tudo se pode e quando se morre, também. Mas enquanto há vida, usufrui da tua própria capacidade em deixar para ti e para os que de ti gostam uma lembrança só tua.
Pega a caneta sobre a mesa e escreve.

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