Geovane Belo



DESAMANHECER


Amanheci
entre o cinzeiro
e as unhas roídas

Amanheci
Entre a língua
E o gosto acre do dia

Amanheci
E só não senti
As minhas duas longas pernas

Amanheci
E não abri os olhos
E senti uma mancha no lugar da alma

Amanheci
(como não se amanhece à noite)
sem suportar o dia a vencer as cortinas da janela do quarto

Amanheci
e não olhei a cara amarrotada no espelho
cheia de rugas que um dia eu terei fora da alma

Amanheci
e toda a minha amargura estava
em ter eu desamanhecido para a vida de todas as manhãs.













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